A Operação Cavalo de Troia, conduzida pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado do Ministério Público de São Paulo (Gaeco/MP-SP), apura suspeitas de fraude e corrupção na concessão dos serviços de gestão de resíduos sólidos de Bauru.
Segundo o Ministério Público, a apuração teve origem em suspeitas de ameaças contra catadores de materiais recicláveis ligados à Associação dos Catadores de Reciclagem de Bauru (Ascam). A análise de conversas e ligações levou a duas frentes: a Operação Mobius e a investigação sobre a concessão do lixo.
A primeira fase da Cavalo de Troia ocorreu em 9 de setembro de 2026, com a prisão da então secretária municipal Cilene Bordezan e do executivo Hamilton Agle. Em 16 de outubro, a segunda fase prendeu Renato Purini, então secretário municipal de Governo e marido da prefeita Suéllen Rosim.

O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) suspendeu a licitação após questionamentos ao edital, enquanto o Ministério Público denunciou seis investigados, que se tornaram réus. A apuração ainda examina a participação de outros agentes e as manifestações da prefeitura e dos envolvidos.
Como a investigação começou e qual é a suspeita central
Segundo o Ministério Público, a apuração inicial envolveu suspeitas de intimidação de trabalhadores ligados à Associação dos Catadores de Reciclagem de Bauru (Ascam), que tinha contratos com a prefeitura para serviços de coleta seletiva. Valdomiro Pereira da Silva Filho, empresário e marido da então presidente da associação, Gisele Moretti, teria usado sua influência para ameaçar catadores.
A análise de conversas e ligações do casal levou os investigadores a apurar possíveis pedidos de propina e interferências na concessão dos resíduos sólidos. As suspeitas relacionadas aos contratos de coleta seletiva foram reunidas na Operação Mobius, enquanto a investigação sobre a licitação ficou conhecida como Operação Cavalo de Troia.
O nome da operação remete à suspeita de que pessoas com vínculos com a Estre Ambiental teriam sido colocadas em posições estratégicas da administração municipal para influenciar decisões sobre a contratação. O Ministério Público apura se agentes públicos e representantes de empresas privadas atuaram para favorecer a companhia.
De acordo com a investigação, as possíveis irregularidades teriam começado antes da publicação do edital. Os investigadores examinam se houve interferência nos estudos técnicos, na modelagem econômica e nos critérios de habilitação e julgamento da concessão, prevista para durar 30 anos e avaliada em mais de R$ 5,2 bilhões.
Quem são os principais investigados e o que o MP atribui a eles
A ex-secretária municipal de Meio Ambiente Cilene Chabuh Bordezan é apontada pelo Ministério Público como participante da estruturação da concessão em alinhamento com interesses da Estre Ambiental. A investigação afirma que ela mantinha contato frequente com o executivo Hamilton Libório Agle e que os dois teriam conversado sobre o projeto antes da publicação do edital.
O executivo da Estre Ambiental Hamilton Libório Agle é apontado como um dos articuladores do suposto esquema. Segundo o MP, ele teria buscado influenciar a preparação da concessão e obter vantagens para a empresa, em contatos com agentes públicos e em discussões sobre aspectos técnicos e econômicos.
Renato Purini, então secretário municipal de Governo e marido da prefeita Suéllen Rosim, foi preso na segunda fase da operação, em 16 de outubro. O Ministério Público atribui a ele atuação como figura política do grupo e apura sua participação em articulações sobre a concessão, além de possíveis repasses ilícitos a agentes públicos e vereadores.
Entre os outros denunciados estão o ex-secretário dos Negócios Jurídicos Vitor João de Freitas Costa, a ex-secretária-adjunta de Meio Ambiente Sara Moura de Jesus, a funcionária da Estre Talita de Andrade Soares Chieregatti e o coordenador técnico ligado à Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Mário Luiz Silvério. Talita passou à prisão domiciliar em 8 de outubro, enquanto Silvério é considerado foragido; os demais seguem presos. No núcleo relacionado à coleta seletiva, Gisele Moretti e Valdomiro Pereira da Silva Filho foram detidos temporariamente e, depois do fim do prazo, liberados com medidas cautelares.
Elementos reunidos, denúncia e situação da concessão
Mensagens extraídas de celulares e outros materiais apreendidos são citados pelo Ministério Público como indícios de conversas entre Cilene Bordezan e Hamilton Agle sobre a concessão. Para os investigadores, os registros podem indicar alinhamento entre a ex-secretária e o executivo durante a preparação do projeto e a condução de procedimentos administrativos.
Na primeira fase, foram apreendidos R$ 240 mil na residência de Vitor João de Freitas Costa, então secretário municipal dos Negócios Jurídicos. O valor foi citado no contexto das suspeitas de vantagens econômicas indevidas, e celulares, documentos e outros materiais também passaram a ser analisados pelos investigadores.
A denúncia do Ministério Público, com 317 páginas, atribui aos seis denunciados crimes como organização criminosa, contratação direta ilegal e fraude ao caráter competitivo de licitação. O documento também descreve episódios de corrupção ativa e passiva envolvendo parte dos acusados, e a Justiça recebeu a denúncia, tornando-os réus.
A concessão previa a gestão dos resíduos sólidos de Bauru por três décadas e tinha estimativa superior a R$ 5,2 bilhões. O Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) suspendeu o procedimento após questionamentos ao edital, impedindo o avanço da concorrência nos termos inicialmente previstos; a suspensão não encerrou a investigação criminal.
O que falta esclarecer e o que dizem os envolvidos
As investigações ainda precisam individualizar a participação de cada pessoa e determinar se outras pessoas atuaram nas articulações. O Ministério Público também apura a existência, a origem e o destino de possíveis pagamentos ilícitos, bem como a eventual influência sobre agentes públicos e vereadores.
A Estre Ambiental afirmou que colabora integralmente com as investigações e que não participará da licitação do lixo em Bauru. A empresa também informou que adotaria providências para se desvincular do processo.
Após a segunda fase da operação, a Prefeitura de Bauru declarou que vinha fornecendo documentos, informações e esclarecimentos às autoridades e que continuaria colaborando com as apurações. A prefeitura não atribuiu à prefeita participação na investigação criminal; Suéllen Rosim, porém, é investigada em uma comissão processante aberta na Câmara Municipal para apurar possível negligência na elaboração do edital.
Em depoimento à comissão em 16 de outubro, Suéllen Rosim afirmou que o marido não participava das decisões sobre o edital, negou ter recebido vantagens indevidas e disse desconhecer encontros entre Purini e o executivo da Estre Ambiental. Em nota, a prefeita declarou ter adotado medidas administrativas com responsabilidade, transparência e imparcialidade e afirmou que confia no esclarecimento dos fatos.


